oliveira da eurídice

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Friday, December 23, 2011

Já passou

da série músicas que a minha oliveira queria que durassem um bocadinho mais para arrumar melhor as memórias do quão perfeita a vida futura foi, em retrospectiva.


Monday, November 07, 2011

eurídice sitiada - 2º dia

- Queres que me mande para cima dela. Posso não a matar, mas se lhe acertar com o tronco, de saúde não fica!
- Deixa, Aurora. Ela há-de cansar-se. Além disso, partias-me a janela toda. E hoje em dia é tão difícil encontrar um vidraceiro que me faça uma janela destas em condições...
- A dona Paciência esteve de intrigas com ela, hoje, sabias?
- Com a Soraia?
- Sim.
- Uma conspiração? Na minha própria casa!? Essa mulher não tem remédio. Vai já recambiada para a prateleira da filosofia. Alemã!
- Não achas que estás a ser demasiado severa com a velhota?

Monday, October 24, 2011

da série perdidos da gaveta, livro III do apocalipse mariapiense, epístola às oliveiras vindouras

A minha casa não é minha. O meu bisavô viveu aqui com os três filhos e a mulher. Os filhos casaram-se, ele morreu. A minha bisavó viveu mais uns anos. E viveu aqui com o filho (o meu avô) a mulher dele (a minha avó) o filho deles (o meu pai). O meu avô morreu. A minha bisavó morreu. O meu pai casou-se - com a minha mãe, naturalmente - e veio para cá. Eu nasci, a minha avó morreu. Os meus pais mudaram-se. Fiquei eu. Esta casa não é minha, porque eu só vivo aqui, consciente da minha enferma insignificância para estas paredes que viram anjos e demónios, amor e ódio, doença e morte e vida. E osgas. Muitas osgas. Nem todas sobreviveram, sobretudo as que foram avistadas pela minha mãe.

Se a cómoda que está no meu quarto, a mesma que esteve no quarto da minha bisavó, da minha avó e da minha mãe, decidisse um dia falar comigo, talvez me contasse o que se passou no dia em que os meus tios-avôs, uma tríade de maduros lisboetas, foi para o torel por insultar um polícia. A história faz do meu bisavô um colosso, que com uma bofetada bem aplicada na cara de um, mandou os outros dois ao chão. Ou de quando o Anjinho caiu do 2º andar, pelo vão das escadas, e aterrou de pé no rés-do-chão, incólume. Imagino o tabefe de nervos preso na palma da mão da dona Emília... 

Esta casa guarda tudo o que sou, o que não fui e o que poderia ter sido; sabe coisas que eu não sei, coisas que eu gostaria de saber e outras tantas que preferia que não soubesse, mas alguém tinha de ser cúmplice. 

Esta casa é de muita gente antes de mim e assim continuará até que de mim seja gerada outra pessoa. Quando isso acontecer, de novo pintarei as paredes, mudarei os móveis de sítio, dormirei noutro quarto, para que nenhum dos segredos seja revelado antes de tempo. Para que os meus bisavós, os meus avós, os meus pais e eu permaneçamos. E para que nenhuma osga fique sem tecto.

Wednesday, July 07, 2010

IMIGRAÇÃO - PARTE II

Esperam que haja tempo para quê? Intrigada e em bicos de pés, aproximei-me da janela (fechadinha, que já cá ando há uns anos para saber como é) para ouvir melhor a conversa e tentar perceber o que se passava naquele quintal. Dou um passo atrás (ainda estou dentro de casa e à janela, mas instintos não se contrariam) ao ver ambas as fugitivas trepar parede acima; reparo, então, no bojo de cada uma e apercebo-me de que aquilo não é barriga de mosquitos. E apiedei-me das moças, de esperanças (osgas bebés não deixam de ser bebés), a arrastarem os ventres pelo musgo das paredes, encharcadas e assustadas.

- Clotilde! Conceição! Voltem que ela já se foi embora - pedia a Aurora.
- É impressionante, palavra d'honra - indignou-se a Violeta, que chegava com as malas às costas. Raça das catraias, que lá tirando os livros não sabem fazer mais nada. Mando-vos eu as minhas primas da terra para abrigarem durante uns dias e nem isso conseguem. E agora, como é que é? Hein? Não dizem nada? Estão as três a tremer de medo cada uma para seu lado. Vim eu a correr da outra ponta da rua, até mandei o Idalécio Pombo avisar que não demorava, para aguentarem um bocadinho, e depois chego e é isto?
- Oh Dona Violeta, a culpa não foi nossa. A eurídice não vinha cá fora há tanto tempo, não imaginávamos que hoje lhe desse para isso. E o Artaxerxes também tinha dito que a distraía e nada. Foi só chegar o afinador do Teodoro e esqueceu-se logo de tudo - argumentou a Aurora, com os ramos baixos.
- Bem, agora temos de ver como é que vamos resolver isto. Vou buscar as primas lá acima e já conversamos.

Abri a janela (uma nesga, só) e perguntei à oliveira:

- De onde saíram aquelas duas criaturas, oliveira? Por que não me disseste nada?
-Já sabia que não ias gostar, por isso não valia a pena contar-te. Ias dizer que não, que isto não é a Santa Casa e que só há espaço para uma osga neste quintal. E elas tinham de ficar na rua ou clandestinas noutro quintal qualquer. Não me pareceu correcto e decidimos não te dizer nada.
- De onde é que elas vêm?
- De longe. Olha, são conterrâneas do senhor dos Bichos. Parece que andavam as duas enamoradas do mesmo sardão, vê lá tu. E não sabiam uma da outra! Quando descobriram, já era tarde e ele deu à sola com a viola às costas. Os pais correram com elas de casa e então vieram para aqui, onde sabiam que estava a prima Violeta. Não te zangues com elas. Zanga-te comigo, mas deixa-as ficar, que não têm para onde ir. Além disso, já viste o estado em que estão. É crime pô-las na rua.

Não é que não me tenha ocorrido tal pensamento, e outros piores, por entre arrepios contínuos, mas não podia ser eu a agravar a desgraça destas criaturas. Chegou a Violeta com as duas primas seguindo atrás dela e parou atrás da Aurora, a olhar para mim. Da janela e ainda muito desconfortável com toda a situação, disse:

- Clotilde Conceição, prazer em conhecê-las. Perdoem-me a reacção de há pouco, apanharam-me de surpresa e não consegui evitar. Eu sou a Eurídice e este é o meu quintal. Sejam bem-vindas. Esta é a Aurora e esta a minha oliveira, que já conhecem. Podem ficar onde vos aprouver, desde que não entrem para dentro de casa. Há água e mosquitos com fartura, às vezes aparecem aí besouros. Disponham. Não aceito convites para amadrinhar os pequenotes, mas ensino-os a ler quando chegar a altura. Se precisarem de alguma coisa, falem com a Violeta, que já cá está há muitos anos e sabe as regras da casa.

- A gente não quer dar trabalho, menina - interrompeu a Clotilde.
- Não dão trabalho nenhum. Ficamos assim entendidas e estou certa de que nos daremos todas bem. E agora, se me dão licença, vou lá dentro vasculhar os cantos todos à casa e arredar os móveis todos, não vá eu dar com mais primas desterradas pelos quartos - respondi.

Pardais, caracóis, caraoletas, bichos da seda. De entre toda a bicharada que um quintal pode ter, calha-me uma família de osgas excomungadas e prenhes.

Vou ser tia.
IMIGRAÇÃO

- Xiu, ela vem aí!

Hesitei antes de entrar no quintal. Sei que andam de segredos e a congeminar uma rebelião porque não só não as tenho regado todos os dias como há semanas que não há bolachas maria torradas. O Artaxerexes anda insatisfeito e a Violeta inquieta. A Dona Paciência não tem colaborado com as árvores na sua função de fornecedora de Camus e Sartres, por medo que elas os estraguem ("São edições muito caras, menina eurídice, elas não têm noção!") e a morte das duas baratas anciãs no espaço de uma semana às mãos de um misterioso assassino - estavam moribundas, caramba! No meu chão da cozinha... - exaltou ainda mais os ânimos.

Para rematar este quadro de desconfiança e mau-estar geral, o Manjerico Segundo morreu, enfim, após longa e heróica luta contra pratos de água inadequadamente fundos, assimétricos e sem água.

Entrei no quintal a rogar perdão enquanto pegava no regador e o enchia de água. Estranhei o silêncio generalizado mas continuei a desenrolar justificações e a afastar a horda de mosquitos que invadiu repentinamente o quintal.

- Tantos mosquitos! A Dona Violeta não tem estado cá?
- Tirou férias esta semana. Foi até ao 54 ver a prima, mas deve voltar hoje à noite - respondeu a Aurora.

E é então que vejo algo cair redondo no chão, de um vaso, e começar a subir a parede. Recuo, em pânico, perante uma das maiores osgas que vi em dias da minha vida.

- Desculpa, Clotilde! - gritou a Aurora
Olho para a Aurora, petrificada. A traição! E cai outra osga do vaso da minha oliveira.

- Corre, Conceição! - gritava a oliveira. Larguei o regador, que tombou sobre a nespereira-há-de-ser-se-deus-quiser-não-lhe-vou-dar-nome-enquanto-não-tiver-pelo-menos-dois-palmos-de-existência e corri para fora do quintal.

Oh ignomínia! Traída pela minha prole.

- Não sabias segurar a Conceição um bocadinho melhor?
- A Clotilde caiu primeiro e a Conceição assustou-se. Que querias que fizesse? Elas estão nervosas, é natural. Espero que ainda haja tempo - sussurou a oliveira.

Fiquei a vê-las tremer da janela da sala.

Thursday, February 25, 2010

A OLIVEIRA DA EURÍDICE ENCONTROU...


















... o espírito da sua eurídice.
E perguntou-me

- Importas-te que o diga no blog? Que toda a gente fique a saber que és assim, de gancho, no fundo...

Respondi que o blog era dela e que ali dizia o que lhe apetecesse. Mas que citasse, que o trabalho científico é bonito e cai sempre bem.

Portanto cá vai: obrigada Trama pelo achamento desta senhora (porque, tal como o Brasil, a dita senhora já lá estava antes de ser descoberta).

Friday, October 09, 2009

MANJERICO

Percebi há uns dias que a oliveira dos meus olhos não compreendeu o manjerico-gate, em Junho passado.


O que se passou foi o seguinte: Comprei um manjerico, dos pequeninos. Gosto de comprar manjericos essencialmente porque gosto de regatear com as senhoras que vendem manjericos. Quando a senhora se recusou a regatear o preço do dito, na praça da figueira, antevi uma vida trágica para o pequenino, negado que lhe fora um direito de nascença. Como se tivesse nascido sem raminhos. E se não me falha a imaginação, jugo até ter ouvido as sagradas e agoirentas gaivotas voando em círculo por cima das nossas cabeças.

Trouxe o desgraçado para casa, convicta da alegria que uma nova companhia iria trazer à minha jovem oliveira. Ultimamente andava a oliveira acabrunhada, macambúzia, talvez pelo rebuliço instalado na casa, em pleno processo de pinturas, e nem o anjinho, de volta das tintas no quintal, parecia fazê-la arrebitar.

Pois que ao cabo de uns dias de convivência entre ambas a espécie floral e arbórea, chego a casa para encontrar o destino consumado: o manjerico caído no chão, o vaso partido, terra e folhas espraiadas pelo frio da tijoleira.

"Que se passou?" pergunto à oliveira.

"Não aguentou a pressão" respondeu-me. "Já manjerico não sou!" foi o que ele disse, antes de se mandar do parapeito da janela."

Foi este o relato do sucedido segundo a minha oliveira. "Os manjericos são muito frágeis, pá! Não se lhes pode dizer nada."


Não pude discordar. Os manjericos são, efectivamente, frágeis. Até hoje não sei o que ela terá dito ao pobre do manjerico; sei, porém, que não voltei a comprar-lhe um manjerico e que não tem sido fácil arranjar-lhe uma companhia. Hoje, 4 meses decorridos de tão negro dia, preparo-me para regar aquele pé de feijão, quando oiço


"Então e o manjerico?"


"Que tem o manjerico?" olho para trás, desviando a atenção dos minúsculos animais que se desenvolveram na água estagnada do meu tanque (outra história, para depois).


"Onde anda esse manel? Nunca mais o vi. Mandou-se do parapeito sem ai nem ui, eu aqui tão quietinha que não lhe fiz mal nenhum e nunca mais disse nada"


"O manjerico morreu." respondi, com o sobrolho meio franzido de incrédula que estava com a pergunta.


"Sim, já me tinhas dito, mas onde anda ele? Porque é que nunca mais voltou?" Também te zangaste com o manjerico? És de gancho, também" Foi aqui que comecei a ficar preocupada.



A minha oliveira não percebeu o que se passou.


E não vou ser eu a explicar-lhe, que dada à melancolia já ela é. Sobretudo agora, que anda de amizades com as couves da vizinha de cima.