oliveira da eurídice

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Sunday, November 20, 2011

tarde de 20 de novembro de 2011 (por eurídice)

Varri o quintal. Dois quilos de folhas secas e molhadas, amontoadas numa disposição inaudita e suspeita atrás dos vasos - direitinhas para o lixo. Depois, mangueirada. Forte. Tudo limpinho. Sem osso. Missão cumprida.

tarde de 20 novembro de 2011 (por Violeta)

Fui passar o dia a casa da prima Antónia, no quintal do 56. Quando voltei, não tinha casa. Ainda vi restos da poltrona de figueira (uma relíquia da minha mãe) entalados debaixo do vaso da Aurora. E mais nada. Desapareceu tudo. Tudo.

Monday, November 07, 2011

eurídice sitiada - 2º dia

- Queres que me mande para cima dela. Posso não a matar, mas se lhe acertar com o tronco, de saúde não fica!
- Deixa, Aurora. Ela há-de cansar-se. Além disso, partias-me a janela toda. E hoje em dia é tão difícil encontrar um vidraceiro que me faça uma janela destas em condições...
- A dona Paciência esteve de intrigas com ela, hoje, sabias?
- Com a Soraia?
- Sim.
- Uma conspiração? Na minha própria casa!? Essa mulher não tem remédio. Vai já recambiada para a prateleira da filosofia. Alemã!
- Não achas que estás a ser demasiado severa com a velhota?

Sunday, November 06, 2011

- Sei que é paranóia minha, mas ia jurar que aquela osga está a fazer-me uma espera. Desperta-me qualquer coisa que já não é só o costumeiro nojo ou o terror inusitado e desproporcional que tenho pelas criaturas da espécie.



- Não é paranóia nenhuma. Ela está mesmo à tua espera. À espera que saias ao quintal.
- Também é escusado gozares comigo dessa maneira. Sabes que me pelo de medo...
- Não estou a brincar, eurídice. Juro com estes dois (ramos) que a terra há-de comer, a rapariga está mesmo à tua espera. Não te lembras da dona Argentina? Claro que não te lembras, nunca te lembras de nada... Adiante. A dona Argentina é (era, paz à sua alma, deus a tenha em paz e sossego) a avó
- "deus a tenha em paz e sossego"?
- Não sejas chata. Cada um com a sua. E tu não tens poucas. Se fosse a ti, aproveitava agora para ficar caladinha. Queres saber ou não?
- Querer, querer, não quero. Mas também não queria ter uma osga colada à janela, e tenho. Claramente, a minha vontade neste quintal conta muito pouco.
- Não sejas fiteira e ouve lá o que tenho para te contar, que não te quero mal. A dona Argentina, dizia eu, é (era, paz à sua alma, deus a tenha em paz e sossego) a avó da Soraia, a osga que tens aí à janela. Não te lembrarás, claro, já vimos isso, mas a dona Argentina, que morreu há 10 anos em cima do telheiro, viveu 5 dos seus 15 anos sem uma perna e com um tique nervoso acentuado que a impedia de caminhar a direito. Nasceu, cresceu e (quase) morreu naquele que é considerado o pior momento da história das osgas deste quintal: a tua infância e pré-adolescência.
- Homessa, mas que fiz eu à desgraçada? Ai, espera... Não me digas que foi aquela que persegui até ao fundo do quintal de vassoura em riste, andava eu pelos meus 12 anos?
- Samente!
- "Samente"?
- Vai ao Youtube. Tem graça, por acaso.
- !?
- Mas sim, foi essa mesma. Conta-me a Soraia que a mãe lhe contou como a sua mãe, avó da Soraia, era doente dos nervos e, quando começaste a jogar basquete no quintal, foi a ruína da comunidade. A rede de basquete pendurada na parede foi o fim. Osgas de quintais vizinhos chegaram a achar que estavam 20 crianças neste quintal com 20 bolas cada uma.
- Não percebo como vem isso ao caso.
- Vem porque a dona Argentina foi parar ao muro proibido sem querer, coitadinha, já pouco lúcida e com o sentido de orientação arruinado pelas vibrações violentas das boladas que atiravas à parede. Uma vez no muro proibido, para além de gritares com os pulmões de um adulto e a intensidade de um infantário com 200 crianças à vista da Argentina (o que desorientou ainda mais a pobre), acertaste-lhe com a vassoura numa das pernas, que teve de ser amputada pela Violeta.
- (engulo em seco)
- A Soraia tem maus fígados, isso está visto. A Violeta tentou explicar-lhe que eras catraia, que não sabias distinguir as coisas, mas a outra, nada. Nunca chegou a conhecer a avó e a mãe, com o desgosto, emigrou para o quintal do 38 logo depois. Nasceu lá, sem família, sem amigos, com uma mãe aterrada e chorosa dia e noite. Agora voltou e quer vingança.
- Vingança? E como pretende uma osga de 7 centímetros vingar-se de uma mulher adulta? Vai engolir-me?
- Ela diz que sabe bem o que fazer.

Friday, October 28, 2011

O desgraçado do moscardo - licenciado em Psicologia por um reputado politécnico - não sabia ao que ia quando decidiu analisar a minha oliveira.

De que tem medo?
De ficar sem água

Então tem medo da morte, será isso?
Não. Tenho medo de ficar sem água.

O que acha que lhe acontece se ficar sem água?
Fico com sede.

Não morre?
Não. Fico com sede. Que obsessão é essa que tem com a morte?

Não é obsessão nenhuma, estava só...
O senhor Moscardo...

Por favor, trate-me por doutor Abílio Pisca. 
(oliveira revira os ramos de cima, aqueles que já passam o telheiro)
O doutor Abílio Pisca tem medo de morrer, é?

Não, oiça, não está a perceber. É um assunto importante.
Importante é ter água. Já alguma vez teve sede? Muita sede?

Sim, claro.
E agradou-lhe, a sensação?

Evidentemente que não.
E já alguma vez morreu?

Que pergunta... É óbvio que não!
Então não percebo o seu problema.



Friday, September 16, 2011

ABECEDÁRIO DE UMA OLIVEIRA COM SEDE

A Violeta diz-me que sa
B e que a eurídi
C e, um
D ia, vai voltar ao quintal. Diz que volta s
E mpre, que não
F az por mal quando se tranca em casa, que são amar
G uras passageiras de uma
H ipocondríaca melancól
I ca reincidente, que
J á o anjinho era assim, que não há nada a fazer. Fico sempre ca
L ada, sem saber o que dizer. Não sei do que fala. Eu não tenho a
M arguras. Te
N ho raízes, terra, um prat
O para a água e uma janela
P ara o interior. O que sei é
Q ue não me
R ega há
S emanas e que tenho sede e calor e frio e que
T enho de aprender a ir sozinha do q
U intal à estante da sala, que isto de não ter li
V ros para ler é pior que viver numa cai
X a de cartão sem buraquinhos por onde entrar lu
Z .

Thursday, August 25, 2011

Da série Dramas da vida real e casos da vida, tardes da júlia e senhoras que possuem santinhas que choram, utilizam óculos e auferem pensões de miséria - caderno II
também conhecido como
Procrastina, valente - volume LXXVIII


A minha oliveira anunciou há dias o fim da sua não-tão-longa-quanto-isso amizade com a dona Joanilde, a amiga imaginária, escriturária reformada com dois filhos, um que já acabou a faculdade e é director (?!) e outra que é linda como o Sol, casa para o ano.
Não fosse este o segundo comunicado do género nos últimos meses (antes da dona Joanilde tinha sido o senhor Adérito, dono de uma loja de ferragens que escrevia poemas do Ultramar e tinha a mulher na retraite), nem me perguntaria (tão pouco a ela)  razão de tanta desamizade.
Achei por bem tentar ir ao fundo da questão, não fosse a minha oliveira estar a transformar-se num criatura anti-social, abespinhada, solitária (teria a quem sair, coitadinha) e perguntar-lhe, enfim, qual o problema dos amigos imaginários que tem tido, para não querer continuar a ser amiga deles.

- Não consigo acreditar neles.

Wednesday, August 24, 2011

da série estes estavam na gaveta desde a última vez que procrastinei

Os versos que se seguem são de uma finura ímpar. Nunca o estilo rasteirinho esteve tão bem representado e é uma pena, indeed, a censura das primeiras e últimas quadras. Noblesse oblige. Sim, que parecendo que não, ainda há aqui alguma dignidade. Pequenina, mas há.

(...)

Mas veja o leitor ainda
a tristeza maior e intestinal
de receber um email, ó linda,
e não ter como imprimir o original.
De bradar aos céus,
a desonraria que seria,
ter lido o esteiros e o gaibéus
e viver ao pé da mercearia
Não!, que a gente aqui é mais bolos
e não suporta comunistas.
Essa gente que escreve desconsolos
Não os querem os retalhistas!
Até porque, e temos de lhes dar razão,
A esses temos de dar para trás!
“Não se pode abrir as pernas a qualquer rapagão”
Já bem o pregava frei Tomás...
É um mundo muito complicado,
este da edição,
ter de gerir um ego beliscado
pelo punho viscoso da revisão. 
Mas a nossa história 
começa muito antes disto,
no tempo da científica arte divinatória
Quando o dito era o anti-cristo
Publicava Marx, Engels e Nietsczhe
resgatando as massas ao analfabetismo
Dizia-se mesmo que fumava haxixe,
Até ao dia em que chegou o capitalismo.
(...) 

continua, sim, mas o servidor não aguentaria nunca tamanha magnificência literária. 
Homero, Virgílio, Dante, ajoelhai-vos perante a grandeza, o génio, o sol lui-même. Camões vive!, sob a forma de uma oliveira, no meu quintal. Pelo sim pelo não, deixámos de comer vaca aqui no quintal, não vá Vishnu tecê-las e a Aurora encarnar o Raúl Solnado. 

Tuesday, February 01, 2011

DO MEDO DO ATAVISMO MAIS QUE CERTO DAS CLASSES LITERATAS
(sim, é mais um post sobre academismo)


Da série Títulos Que Ficaram Para Trás


1. A METAFÍSICA DO LUPANANR
Que é como quem diz, “em Portugal sempre se confundiu humanidade com vulgaridade”
Ou ainda
Ai meu deus, ajuda-me, que não somos nada, ou se calhar até somos, mas não é importante e vamos todos morrer à mesma. E eu não quero morrer assim.

2. DO LUPANAR A UTOPIA
percursos do Cristo-Menino do Romantismo ao Modernismo

3. DA METAFÍSICA DO LUPANAR AO ASCETISMO DA CRIANÇA RANHOSA
um estudo sobre dialéctica

4. LEVANTAS-ME A SAIA OUTRA VEZ E EU PARTO-TE A CARA À ESTALADA
uma análise da sexualidade de Pessoa aplicada ao Cristo-Menino (da perspectiva histórica e antropológica das raparigas das bilhas)

5. DA NOSSA SENHORA À LONGCHAMP
para uma história das malas

6.  DA SÍFILIS NO CÉU AO BICHO DA ESCRITA NA TERRA
uma antologia de tragédias

Sunday, January 23, 2011

ODE AO TRABALHO ACADÉMICO
(em verso livre, que não sei rimar)

A página em branco
essa
meretriz de cândida alvura que nos impele
a nós,
discípulos da bem-aventurança literária,
a olvidarmos qualquer réstia
de humanidade em nós contida,
na barriga ou nas falangetas,
e nos transforma em reais,
verdadeiras,
prostitutas da densidade académica de citação.

Lupanar da metafísica
és tu,
real sociedade
de literatos literandos.

da série
Hoje está frio e eu não nasci para isto
volume I de "EXCURSOS OLIVEIRENSES SOBRE  A VIDA NO QUINTAL"
por oliveira da eurídice

Friday, January 21, 2011

DA AUSÊNCIA, que se faz tarde

Sim, temos andado arredias, eu e a eurídice.
Tal facto se deve a um importante trabalho em curso, do qual venho aqui dar conhecimento.

Trata-se de uma espécie de análise comparativa (ó, deuses no alto qualquer coiso, a ignomínia do passadismo!) entre Caeiro e Guerra Junqueiro - a rima não será acaso, acredito.

Não queria deixar de anunciar que habemus titulum, enfim, e que é de primeira água. É, inclusive, de esperar não mais precisar de escrever depois deste épico académico, pois nada mais ficará por dizer sobre nada neste mundo.


A METAFÍSICA DO LUPANAR
Que é como quem diz, “em Portugal sempre se confundiu humanidade com vulgaridade”
Ou ainda
Ai meu deus, ajuda-me, que não somos nada, ou se calhar até somos, mas não é importante e vamos todos morrer à mesma. E eu não quero morrer assim.

Um ensaio de Eurídice Gomes



Espero, depois disto:

- dispensa da apresentação de tese

- convite para leccionar a cadeira "Estudos literários - Esse Absurdo Em que Insistis, Ó Bisonhas Criancinhas, Formar-vos Por Não Saberdes Matemática"

- a imortalidade, por ser uma árvore e o Caeiro diz que isto anda tudo ligado e que a Natureza é tudo e fala em árvores e vê muitas, ao que parece, e insinua que as mesmas serão imortais. 




Friday, September 03, 2010

A EURÍDICE FOI CORRER

e foi isto que contou


Tuesday, June 01, 2010

NO VALE DA IMAGINAÇÃO


encontrei parente afastado, 
e igualmente rezingão, 
do Senhor Sapo.


Perguntei-lhe se por acaso não conheceria o sapo cuja fotografia eu segurava na mão.
De imediato me disse que, infelizmente, conhecia e bem, que em pequenos tinham brincado no quintal de um senhor muito rico e poderoso da Capadócia, quando ainda fazia parte do Império Persa.  
- Acho que se chamava Artaxerxes, mas olhe, menina, não lhe posso dar certezas, porque depois meteu-se a guerra e o senhor desapareceu num repente. Dizem que abalou à procura da irmã, que andava metida num belo sarilho com uns senhores que tinham camelos.
- Estou a ver. Foram tempos complicados para estes lados.
- Ui, menina, nem queira saber. Mas diga lá: de onde conhece o primo Antão?
- Antão? 
- Sim, o primo Antão, que tem aí na fotografia! 
- Vive em minha casa, na estante dos discos. 


O mundo é um penico.



Wednesday, May 19, 2010

NESTE QUINTAL

- ... neste mesmo quintal onde estão agora, já houve galinhas. E coelhos. Mas esta história é com galinhas.

Noites quentes são boas para passar o serão na palheta com a minha oliveira. Ia explicar-lhe a teoria da relatividade, levava um pacote de bolachas maria torrada e um balde com água fresquinha, uma limonada para mim... e oiço vozes, uma grande galhofa na verdade.








- Não havia coelhos nenhuns! - dizia o Sapo
- Como eu estava a dizer, senhor Sapo, esta história é com galinhas. Com uma galinha em particular - continuou a Dona Violeta.
- Galinhas havia, lá isso é verdade. 

Aqui decidi pousar o balde com água. Começava a pesar e a história prometia. Puxei um banco e fiquei à janela.

- Estávamos em mil nove e cinquentas, vivia aqui uma senhora com o Anjinho. Era a Dona Emília. Pelava-me de medo dela, que não tinha medo de nada nem de ninguém e tinha como única preocupação o Anjinho. Nunca me aproximei do Anjinho, como calculam; havia vassouras e a senhora era de um porte respeitável.

A Dona Violeta parou uns segundos com um tique nervoso no olho enquanto repetia "vassouras" entredentes. Respirou fundo e retomou a história:

- Para além do Anjinho, tinha grande adoração pela galinha de estimação, que estava na capoeira grande, ao canto. E um dia, a galinha adoeceu. Não punha ovos, andava acabrunhada, meio cá meio lá. A Dona Emília decidiu então fazer o que se fazia sempre que alguém cá em casa ficava doente - telefonar ao Gualter.
- O da Rua Sésamo? 
- Ó criatura, mas quem és tu? Aí empoleirada na Aurora, olha que ainda cais, que ela não anda bem. 
- Eu sou a boneca de pano da eurídice. Estava muito frio lá dentro e o Artaxerxes convidou-me para o quintal.
- O Senhor Artaxerxes também não pode ver um rabo de saias, não é? - replicou a Dona Paciência de dentro
- E a Dona Paciência sempre é muito quadrilheira.

 - Não, não era o Gualter da Rua Sésamo, que modernices mais tontas. Esse era um boneco, filha, não era a sério. Esta juventude, palavra que não sei o que andam a aprender na escola - respondeu, indignadíssima, a Dona Violeta.
- Julguei...
- Julgou mal. Mas continuando: a galinha ficou doente e sem galinha é que a Dona Emília não ficava, que esta dava uns ovos que eram uma maravilha. Telefonou-se para o Gualter, que era médico e já tinha tratado o Anjinho, e o Gualter percebe que a galinha tinha de ser operada. A Dona Emília arregaça as mangas, esteriliza uma navalha, emborracha o bicho (e o quintal inteiro, na verdade. Foi uma noite tão animada!) e, ao telefone com o Gualter que lhe ia dando indicações, abre a galinha pelo bucho com precisão cirúrgica e extirpa-lhe o mal.
- A Dona Emília operou a galinha?! 
- Sozinha?
- Não acredito!
- Pois acreditem, pequenada, que é bem verdade. Apesar de meio zonza, vi tudo pelo vidro da porta da cozinha. A minha mãezinha, que Deus a tenha em paz e sossego, dizia-me que nunca tinha visto tal coisa e finou-se pouco depois, acho que de pasmo.

- Ó Dona Violeta - dizia a oliveira - tem mesmo a certeza que isso foi assim que se passou? A eurídice nunca me contou nada e ela conta-me sempre tudo.
- Filha, vi eu, com estes dois que a terra há-de comer! Ia agora enganar-te?! Se não te contou é porque não sabe, ora! Além disso, era o Anjinho ainda pequenino. Eu cá não o achava Anjinho nenhum. Diabo Negro era o que ela era, a espantar-me o almoço todos os dias aqui a correr de um lado para o outro. Não havia mosca que assentasse.

- Então e a galinha? - pergunta a boneca de trapos da eurídice empoleirada na Aurora.
- A galinha, pois que sobreviveu. A Dona Emília coseu-a e pô-la a convalescer debaixo da chaminé (isto está muito mudado, já não há chaminé nenhuma, é uma pena), acordou da delicadíssima intervenção cirúrgica e ainda pôs ovos durante um ror de anos - concluiu a Dona Violeta.
- Impressionante! - espantava-se a minha oliveira.
- Uma grande mulher, a Dona Emília - lembrou a Dona Violeta. - Uma grande mulher! Ainda lhe guardo saudade, apesar de tudo.

Ali ficaram mais um bocadinho e, quando me levantava para ir à minha vida, ouvi perguntar:

- E essa galinha, onde andará? Nunca a vi por aqui.
- O Anjinho sempre gostou muito de canja...  - rematou a osga.




Sunday, April 25, 2010

AS FORMIGAS

um carreiro delas, do muro até à minha oliveira. 
Comentámos que a coincidência tinha tanto de feliz como de triste, porque apesar de ter sido a música que acordámos a cantar (é um quintal alegre), nenhuma de nós gosta muito de formigas. 


Por mim, deixávamo-las estar quietinhas, que depressa iriam chatear para outra freguesia, mas a oliveira foi tenaz na sua aversão e mandou chamar as tropas.


Não será muito democrático e até a repreendi. Um bocadinho, só.
A aranha dos últimos ramos entoou 


e a formiga que se escondeu atrás do vaso da Aurora, cantava triste, hoje ao fim da tarde, 


Devia ter ficado caladinha, foi sobremesa.

Saturday, March 06, 2010

O PROFESSOR DE PIANO 

Fui dizer bom dia à oliveira, saber se ainda se tinha no vaso e se estava melhor do ramo esquerdo, o mais pequenino e frágil, onde um melro de proporções épicas decidiu postar-se a debicar-lhe os insectos inquilinos

e dou com isto.
















- Quem é este senhor, oliveira?


- É o Artaxerxes. Veio ver o piano e ensinar-nos a tocar. Tens bolachas Maria, daquelas torradas? Diz que gosta muito e levou a noite toda a pedir-me bolachas Maria torradas. 


- Passou aqui a noite? Mas de onde veio o senhor Artaxerxes e como soube ele do piano? 


- Não sei, não lhe perguntei. Mas tem uma irmã em Marrocos e uma mão maior que a outra. Acho que é a direita que é maior que a esquerda. E o melro não voltou, parece que ele e o Artaxerxes já se conheciam, e abalou para o outro lado do muro. 


...


- Bom dia, minha senhora. Vamos ver esse piano?
- Chama-se Teodoro. Venha.

Thursday, February 25, 2010

NÃO DESCANSOU

enquanto não lhe fiz a vontade.
Decorou o texto e não se cala com isto.



E já disse ao Anjinho que não se preocupasse, que desconfia que a eurídice nunca vai chegar a directora geral de coisa nenhuma.
E queria ser o "xé" a meio do vídeo, tão finamente metido.


Wednesday, February 03, 2010

A MINHA OLIVEIRA É UMA EXAGERADA



Somos as duas, na verdade.

Monday, January 04, 2010

12 COISAS DE QUE A MINHA OLIVEIRA NÃO GOSTA


1. água de chuva excessivamente chovida (soube disso há coisa de 2 semanas, quando deixou de conseguir falar comigo porque tudo o que eu conseguia perceber era "glup-glup-glup")
2. o mamute lanzudo
3. terra espalhada fora dos vasos
4. do seu pé-de-feijãosismo
5. da tristeza do anjinho
6. da inquietação da Menina Que Sou Eu E Que Eu Serei
7. vasos pequeninos
8. da aranha que não quer fazer a teia no meu ramo de cima e prefere as folhas secas da palmeira
9. da tradução de latim que a eurídice nunca mais resolve
10. de passar sozinha as noites escuras e frias
11. de passar sozinha os dias escuros e frios
12. de não poder falar com as couves da vizinha de cima porque a eurídice não deixa

Sunday, October 11, 2009

DE INSPIRATIONIBUS EXPIRATIONIBUSQUE

Esqueci-me de regar
a minha oliveira.

Uma semana sem água.

"Já leste o Viagem à Roda do Meu Quarto? Experimenta lê-lo dentro de um vaso. Depois diz-me o que achas." disse-me.

Vou regá-la. Temo que nunca mais volte a ser o que era. A adolescência é complicada, também, para as oliveiras. E aqueles bichinhos no tanque intrigam-na sobremaneira; acha que é uma nova humanidade em embrião. Não tenho como contradizê-la.