oliveira da eurídice

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Friday, November 16, 2012

da condescendência

Não foi simples explicar à oliveira os processos mentais conducentes à condescendência.
Felizmente, tudo se tornou claro depois de lhe explicar o que era a arrogância.

- E como se evita?
- Não evitas.
- Então o que faço?
- Ignora até não conseguires mais.
- E depois?
- Aguentas mais um bocadinho.
- E se já não aguentar mais?
- És uma oliveira. Nasceste oliveira. Às vezes, a condescendência é tudo o que o mundo tem para te oferecer.
- Por ser uma oliveira?
- E por saberes que os outros não o são.
- Não percebo.
- Mas hás-de perceber. Ao contrário deles.
- Estás a ser condescendente?
- Não, estou a ser honesta.
- Às vezes não se percebe bem...
- Pois não.

Sunday, November 06, 2011

- Sei que é paranóia minha, mas ia jurar que aquela osga está a fazer-me uma espera. Desperta-me qualquer coisa que já não é só o costumeiro nojo ou o terror inusitado e desproporcional que tenho pelas criaturas da espécie.



- Não é paranóia nenhuma. Ela está mesmo à tua espera. À espera que saias ao quintal.
- Também é escusado gozares comigo dessa maneira. Sabes que me pelo de medo...
- Não estou a brincar, eurídice. Juro com estes dois (ramos) que a terra há-de comer, a rapariga está mesmo à tua espera. Não te lembras da dona Argentina? Claro que não te lembras, nunca te lembras de nada... Adiante. A dona Argentina é (era, paz à sua alma, deus a tenha em paz e sossego) a avó
- "deus a tenha em paz e sossego"?
- Não sejas chata. Cada um com a sua. E tu não tens poucas. Se fosse a ti, aproveitava agora para ficar caladinha. Queres saber ou não?
- Querer, querer, não quero. Mas também não queria ter uma osga colada à janela, e tenho. Claramente, a minha vontade neste quintal conta muito pouco.
- Não sejas fiteira e ouve lá o que tenho para te contar, que não te quero mal. A dona Argentina, dizia eu, é (era, paz à sua alma, deus a tenha em paz e sossego) a avó da Soraia, a osga que tens aí à janela. Não te lembrarás, claro, já vimos isso, mas a dona Argentina, que morreu há 10 anos em cima do telheiro, viveu 5 dos seus 15 anos sem uma perna e com um tique nervoso acentuado que a impedia de caminhar a direito. Nasceu, cresceu e (quase) morreu naquele que é considerado o pior momento da história das osgas deste quintal: a tua infância e pré-adolescência.
- Homessa, mas que fiz eu à desgraçada? Ai, espera... Não me digas que foi aquela que persegui até ao fundo do quintal de vassoura em riste, andava eu pelos meus 12 anos?
- Samente!
- "Samente"?
- Vai ao Youtube. Tem graça, por acaso.
- !?
- Mas sim, foi essa mesma. Conta-me a Soraia que a mãe lhe contou como a sua mãe, avó da Soraia, era doente dos nervos e, quando começaste a jogar basquete no quintal, foi a ruína da comunidade. A rede de basquete pendurada na parede foi o fim. Osgas de quintais vizinhos chegaram a achar que estavam 20 crianças neste quintal com 20 bolas cada uma.
- Não percebo como vem isso ao caso.
- Vem porque a dona Argentina foi parar ao muro proibido sem querer, coitadinha, já pouco lúcida e com o sentido de orientação arruinado pelas vibrações violentas das boladas que atiravas à parede. Uma vez no muro proibido, para além de gritares com os pulmões de um adulto e a intensidade de um infantário com 200 crianças à vista da Argentina (o que desorientou ainda mais a pobre), acertaste-lhe com a vassoura numa das pernas, que teve de ser amputada pela Violeta.
- (engulo em seco)
- A Soraia tem maus fígados, isso está visto. A Violeta tentou explicar-lhe que eras catraia, que não sabias distinguir as coisas, mas a outra, nada. Nunca chegou a conhecer a avó e a mãe, com o desgosto, emigrou para o quintal do 38 logo depois. Nasceu lá, sem família, sem amigos, com uma mãe aterrada e chorosa dia e noite. Agora voltou e quer vingança.
- Vingança? E como pretende uma osga de 7 centímetros vingar-se de uma mulher adulta? Vai engolir-me?
- Ela diz que sabe bem o que fazer.

Wednesday, August 24, 2011

da série estes estavam na gaveta desde a última vez que procrastinei

Os versos que se seguem são de uma finura ímpar. Nunca o estilo rasteirinho esteve tão bem representado e é uma pena, indeed, a censura das primeiras e últimas quadras. Noblesse oblige. Sim, que parecendo que não, ainda há aqui alguma dignidade. Pequenina, mas há.

(...)

Mas veja o leitor ainda
a tristeza maior e intestinal
de receber um email, ó linda,
e não ter como imprimir o original.
De bradar aos céus,
a desonraria que seria,
ter lido o esteiros e o gaibéus
e viver ao pé da mercearia
Não!, que a gente aqui é mais bolos
e não suporta comunistas.
Essa gente que escreve desconsolos
Não os querem os retalhistas!
Até porque, e temos de lhes dar razão,
A esses temos de dar para trás!
“Não se pode abrir as pernas a qualquer rapagão”
Já bem o pregava frei Tomás...
É um mundo muito complicado,
este da edição,
ter de gerir um ego beliscado
pelo punho viscoso da revisão. 
Mas a nossa história 
começa muito antes disto,
no tempo da científica arte divinatória
Quando o dito era o anti-cristo
Publicava Marx, Engels e Nietsczhe
resgatando as massas ao analfabetismo
Dizia-se mesmo que fumava haxixe,
Até ao dia em que chegou o capitalismo.
(...) 

continua, sim, mas o servidor não aguentaria nunca tamanha magnificência literária. 
Homero, Virgílio, Dante, ajoelhai-vos perante a grandeza, o génio, o sol lui-même. Camões vive!, sob a forma de uma oliveira, no meu quintal. Pelo sim pelo não, deixámos de comer vaca aqui no quintal, não vá Vishnu tecê-las e a Aurora encarnar o Raúl Solnado. 

adolescência

Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. (M. de Assis in Memórias Póstumas de Brás Cubas)


- Mas se nem gente és, oliveira... 
- Dizes tu. Se não sou gente, que sou eu?
- Uma árvore. Uma oliveira.
- E desde quando falam as árvores?


(...)


- Traz-me lá o emplastro* e vai-te deitar que amanhã trabalhas. 




*o comando da televisão

Tuesday, November 30, 2010

PORQUE ÀS VEZES É PRECISO SAIR DA FENOMENOLOGIA 



porque os quatro quadradinhos 
de metafísica que como 
por dia nem sempre me são suficientes


porque também não sou nada, 
quando até queria ser alguma coisa

e porque é a única coisa que faz
minha oliveira sorrir quando 
está a chover e o frio lhe 
queima as folhas.





"Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu,
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras,
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem


E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.


Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!


Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três,
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz


E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz no braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras nos burros,
Rouba as frutas dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.


Diz-me muito mal de Deus,
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia,
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.


Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que as criou, do que duvido" -
"Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada,
se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres".
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.


(...)"

Alberto Caeiro, o guardador de rebanhos 



Wednesday, November 03, 2010

INÊS PEREIRA


A Inês falou, há dias, pela primeira vez.
Disse
- Não!

Para grande mágoa minha, não presenciei o acontecimento. Foi por alturas da penúltima grande chuvada de Domingo à noite. Esticou o tronco pequenino, encarou os céus (ou a varanda da vizinha de cima, dependendo da perspectiva) e gritou a plenos pulmões
- Não!


Estarrecidas, a Aurora e a oliveira (contou-me a Violeta, que viu tudo de debaixo do toldo) desenrolaram os ramos que as protegiam do dilúvio e exclamaram
- A Inês falou!
- Não lhe chames Inês, que a rapariga ainda não foi baptizada. Não vês que é aziago?
- Não sejas tonta, Aurora. Se falou, vai viver, isso é certo! Que emoção, a nossa Inês Pereira a falar para se ouvir.
- Faz como entenderes. Eu não lhe chamo nada até a eurídice chegar e baptizar a criatura. Para mim, continua a ser a nespereira, tout court.
- Inês Pereira, a nespereira! Será que já sabe ler? As nespereiras têm fama de ser muito espertas...
- A Criação do Mundo, parece-te bem? - sugeriu a Aurora. - Vou pedir ao Artaxerxes que o traga quando parar de chover.
- Perfeito. Mas por que será que disse "não"? Estará zangada?
- Se calhar não gosta de chuva.
- Eu também não gosto muito, mas agora não há grande coisa a fazer. Estamos no Outono, ainda há-de chover muito - observou, muito bem observado, a oliveira.

- Não! - gritou, de novo, a nespereira Inês Pereira.

Não conseguiram arrancar-lhe mais nenhuma palavra para além do convicto advérbio de negação e decidiram que a nova árvore, que tão heroicamente aguentou enxurrada após enxurrada (provenientes quer do regador quer do céu), é do contra. Certo é que hoje, com a janela aberta e a televisão ligada nas notícias sobre o orçamento, voltei a ouvir "não" vindo do quintal, mais tímido e em tom de queixume.

São tempos difíceis para uma nespereira, uma Inês Pereira, vir ao mundo. Se é do contra, não sei (se for, terá a quem sair); mas que é bonita e forte a minha árvore, isso é.

Sunday, September 26, 2010

TAUROMAQUIAS

disse-me o anjinho

Monday, August 23, 2010

O VERÃO NO QUINTAL DA EURÍDICE

Entro no quintal e dou com o Artxerxes muito afoito no meio dos vasos



Plantou nespereiras. Aliás, não as plantou propriamente... Ajeitou os caroços de nêsperas que eu pusera no vaso, a ver se vingava alguma, mas ele diz que se não fosse ele, as desgraçadas nunca teriam sobrevivido. Falou com elas, ajeitou-lhes a terra, arrastou-as para o sol e para a sombra consoante a intensidade do sol e regou-as (como não consegue abrir a água, abanava a oliveira e a laranjeira de maneira a que os pingos retidos nas olhas destas caíssem para o vaso das nespereiras).

Organizou-se com a Clotilde e a Conceição para que os mosquitos não enguiçassem as pequenas e leu-lhes os últimos três livros das Histórias do Heródoto, para as inspirar a grandes feitos. Ou pelo menos a grandes nêsperas, no futuro.

A oliveira da eurídice deixou-lhe As Aventuras do João Sem Medo junto do prato da água e a Aurora está a fazer uma lista de coisas importantes que não pode esquecer-se de lhes ensinar quando elas crescerem.

- E como se chamam? - perguntei, entusiasmada.
- Ainda não têm nome. Enquanto não tiverem um tronco suficientemente forte para aguentar as enxurradas de água que nos mandas uma vez por semana, convencida de que não nos dói nada e de que uma rega por semana é suficiente, não arriscamos a dar-lhes nomes. Este quintal está para as árvores como a idade média para a mortandade infantil.

Thursday, May 20, 2010

A OLIVEIRA ESTÁ A LER



" Eu não sou um marginal, porra.
          Sou um senhor."


"- E agora, Luiz?
 - Isto está visto. Isto está visto.
 - E valeu a pena?
 - Se valeu a pena?!... O que é que eu posso dizer a isso?...Foi como foi."


E recomenda.

Monday, April 12, 2010

PELA MANHÃ


veio a Aurora.
Orfã de pai e mãe, acolhia-a no meu quintal. Dizem-me que é de boas famílias, mas que era muito "rebiteza" e que se recusava a fazer o que lhe diziam na estufa. Acabava por desinquietar as outras árvores todas e, apesar de bonita e de fazer muita vista, não podiam continuar a responsabilizar-se por ela. Temiam o pior, ameaçava até não dar flores este ano se não a mudassem para o corredor das nespereiras. ("Porque as nespereiras não são umas tontas, como outras, sempre atrás de uma noiva ainda mais tonta para lhe enfeitar a grinalda").
É uma laranjeira e agora é minha. Chama-se Aurora e é, de facto, muito rebiteza. Não gosta de casamentos e não adorou a vizinhança das couves, mas encantou-se com o vaso de barro da oliveira, com o prato por baixo.


- Que maravilha, um prato por baixo do vaso. Para que serve?
- Para a Violeta, a minha inquilina, que é uma osga.
- O que é uma osga?






Vim-me embora, antes que a oliveira a chamasse.

Saturday, March 20, 2010

ESTAVA AQUI A FALAR COM A VIOLETA


- Violeta?
- Sim, a osga que mora aqui debaixo do prato da água.
- Chama-se Violeta? Nao sabia que lhes davas nomes.
- Não lhe dei nome nenhum, é o nome dela. Olha que ela lembra-se bem de ti, todos os dias no quintal a mandar bolas à parede. Ainda tentou falar com A Menina Que Tu És E Que Tu Serás, mas sempre que a via, a senhora empunhava a vassoura e perseguia-a quintal fora. Desgraçada da criatura não sabia onde havia de se enfiar para ter um bocadinho de paz e fazer a tese - onde acabou por ter nota máxima com louvor e distinção, não que tenhas contribuído alguma coisa para isso.










- E sobre o que era a tese?
- Adopção de répteis e consequências socio-políticas da sua integração em quintais hostis.
- O meu quintal não é hostil!
- Agora não é. Mais ou menos. Podia ser melhor. A Violeta diz-me que isto não são condições de trabalho apropriadas a nenhuma espécie arbórea e que devia tomar conta dos meios de produção e tomar as instalações de assalto. A bem dos trabalhadores e da justiça social. 
- Mas tu não trabalhas, oliveira. Vamos lá a ver onde se meteu essa Dona Violeta, para falarmos sobre umas coisas.
- Está na hora de almoço. Diz no contrato que tem direito a uma hora de almoço. Sabes como é que ela te chama?
- Não sei, mas imagino. 
- Ela quer um vaso maior. Aliás, um prato maior.
- Desconfio que não há Dona Violeta nenhuma.
- Palavra que existe, eurídice. A hora de almoço dela deve estar a acabar, podes pergunta-lhe tu. Ali vem ela, a descer o muro.




E corri, como não corria desde os meus 6 anos. 



Sunday, February 07, 2010

A OLIVEIRA DA EURÍDICE VIU ISTO














e subscreve. Mas não sem medo de represálias...

Sunday, January 10, 2010

DEIXOU-SE DE FRANCESES, MAS ARREPENDEU-SE LOGO

"(...) gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstrui-se-me sem ideal nem esperança
(...)"

A minha oliveira pediu-me a TABACARIA plastificada e uma garrafinha de oxigénio.

Sais ao velhaco do teu pai...

Sunday, November 08, 2009

TRAGÉDIA


Diz-me a oliveira que, quando crescer, quer ser uma oliveira.

Desconfio que ouviu os rumores que se espalharam, desconfiando da sua oliveirice (a minha oliveira não se parece, de facto, com uma oliveira, mas A Menina Que Foi Eu E Que Eu Serei garantiu-me que, à altura do registo, a deram como oliveira - brava ou mansa, não se recorda).

De todo o modo, a minha oliveira, a oliveira da eurídice, parece determinada em ser uma oliveira, em crescer oliveira, em ser doce e inquisitória oliveira do quintal da eurídice, do meu quintal.

Voltei para dentro, convicta de que ela sabe, de saber sabido, que estou eu mais assustada que ela com este ser e não ser. Não sabia que ia ter uma oliveira shakespeariana, hamletiana. Terei, porventura, julgado que ia ser a única tragédia literária nesta casa. A ingenuidade tem destas coisas e pasmo-me quando percebo, ao desligar a luz do quintal, que ser oliveira pode ser tão complicado como ser eurídice. E dou por mim a querer ser oliveira, também.

Wednesday, October 21, 2009

SECA


Dadas as condições atmosféricas, a oliveira dispensou-me da tarefa de regador para os próximos tempos. E confessou-me um certo enjoo, já. Da janela, perguntei-lhe se queria alguma coisa para ler. 


"Um guia de plantas aquáticas é capaz de vir a dar-te jeito." disse-me. "Para mim, traz-me só a Teoria e Metodologia Literárias, do Aguiar e Silva. Talvez ajude a contrariar a humidade."


Uma escolha pertinente, achei. 
Lá a ver se não se arrepende. 

Sunday, May 17, 2009

CIENTIFICIDADES ALHEIAS A UMA OLIVEIRA

Pois que me disse a minha oliveira uma destas manhãs (parece que ela gosta mais das manhãs para estas coisas) que não percebia isso de estudos literários nem tinha grande certeza do que queriam exactamente aqueles senhores todorovs nem bakhtins nem tampouco marias vitalinas. E disse ainda que o que lhe parecia a ela, oliveira da eurídice, era que andava muita gente, demasiada gente, inconformada, triste e envergonhada, até, talvez, com o facto de andarem muitos anos em escolas e colégios e universidades a estudar uma coisa que, para todos eles, tinha tão pouca importância, que decidiram tentar torná-la científica.

Ora isto não deixou de me fazer certa espécie, comichão na coluna, impressão no calcanhar.

Na verdade, parece-me que todorovs e bakhtins nunca ensinaram ninguém a escrever. Perceber o que estava escrito, as palavras, os sentidos, os batuques dos ritmos no estômago, sentir náusea, afecto e puro aborrecimento são coisas de quem lê, com ou sem estruturalismo tristemente amarfanhado num canto do cérebro que guarda tais pérolas. "Ler e escrever é para quem quer e para quem sabe por cima do querer.", disse-me ela.

Arrumei o regador. Não sou cientista das letras. Não há ciência nas letras. A literatura é uma coisa que acontece, como a fotosíntese, mas ninguém gosta da fotosíntese nem ninguém a recomenda a um amigo nem paga €25 por ela. E ninguém é cientista por conseguir ler um livro.
Não é triste nem é de gente burra ir para letras. Se é mais fácil, não faço ideia. Para mim, foi! Era melhor se assumissemos todos que enquadrar a obra no contexto político social não é bem a mesma coisa que dividir um átomo (para começar, a Humanidade não acaba quando contextualizamos uma obra), digamos que parece menos exigente. A mim. parece-me. Mas de certeza que quem quer dividir um átomo não leu o suficiente quando era criança para saber que isso também não é muito importante.

Um livro para todos!
Para todos um livro!

(a oliveira da eurídice gostou d' As Aventuras do João Sem Medo. Ela acha que, acima de tudo, é um livro com perspectiva. Óptimo para quem não a tem.)